
O presente simpósio tem por objetivo reunir pesquisas que se interessem pela discussão entre os diferentes caminhos tomados a partir das interseções dos discursos ficcional e histórico, tendo como disparador inicial a consolidação do romance histórico no início do século XIX por sir Walter Scott, segundo a crítica desenvolvida por Georg Lukács em seu ensaio seminal O romance histórico (1937). Não há dúvidas de que ficção e história apontam um marco comum, submetido aos anseios do homem para descrever os eventos da natureza ou, tal como postulado por Linda Hutcheon, estabelecer as chamadas “construções de realidade” (Hutcheon, 1991, p. 89). Das relações simbióticas em tempos clássicos – que lhe apregoava ao poeta as atividades verbais baseadas na imitação, enquanto ao historiador a tarefa de “testemunho ocular” – a tempos da transmodernidade em que ficção e história voltam a ser entendidos não como polos refratários, mas como discursos atravessados pela interpretação de quem narra determinada história (Menton, 1993; White, 1998), não é de se espantar que a ficção histórica venha (re)escrevendo os interesses da recepção e da crítica. A necessidade de apregoar uma possível diferenciação entre história e ficção (ou, especificamente, a literatura) acaba por estar atrelada a uma necessidade de se pensar o próprio passado. Tal ideal de passado, aliás, parece ser subsidiado por um interesse que é fruto das esferas social e cultural. Se, como sublinhado pela crítica espanhola Celia Fernández Prieto (1998), cada época acaba reescrevendo o passado a partir de uma eleição, uma escolha por narrativizar preferências e privilegiar certos interesses, coube – e segue cabendo – também ao literário promover eventuais fissuras diante de discursos hegemônicos, recalibrando olhares monológicos e abrindo, via ficção, espaço(s) para abordar as histórias não apenas dos vencedores, mas também as dos vencidos. Ademais, a proposição de friccionar os múltiplos espaços de enunciação latino-americanos, a partir dos horizontes de recepção e de crítica estabelecidos em universidades e grupos de pesquisa, amplia a busca pela fissura de determinado campo de poder (Bourdieu, 1990, 2002), permitindo-nos ressignificar o passado e, ao mesmo tempo, decolonizar os saberes (Sousa Santos, 2010). Ainda no que diz respeito ao espaço latino-americano, compreende-se que produções ficcionais atravessadas pelos discursos históricos acabam se transformando também em uma chave para a proposta de giro decolonial (Quijano, 2014), uma oportunidade de que, via literatura, sejam (des)estabilizadas as perspectivas dos ditos vencedores, (re)ssignificando os passados e criando novas poéticas para constructos como o “descobrimento” (Fleck, 2008, 2019, 2022). Tal processo reverbera conjuntos de epistemologias outras (Mignolo, 2003), capazes de escapar de hipertrofias e ideias de literaturas nacionais sistematizantes, que pouco parecem dialogar com as expectativas e exigências trabalhadas via Literatura Comparada, há muito, libertas do estigma do texto devedor (Coutinho, 2004). Portanto, este simpósio, cujo eixo parte da premissa de estabelecer os diferentes encontros e desencontros levados a cabo pela ficção ao friccionar literatura e história, receberá propostas de trabalhos inseridos nas seguintes temáticas: a) reflexões diretamente atreladas às transformações ocorridas pelo romance histórico desde a sua consolidação no início do século XIX (Lukács, 1966) até as suas novas possibilidades nas literaturas contemporâneas, com destaque para críticas voltadas aos caminhos outros escolhidos pela ficção histórica (Weinhardt, 2006, 2010; Esteves, 2017; Cerdeira, 2015, 2019) e a sistematização do romance histórico a partir do estudo de sua trajetória diacrônica, com destaque para os seus 2 grupos, 3 fases e 5 modalidades (Fleck, 2017); b) leituras de poéticas que discutam os múltiplos encontros e desencontros dos discursos ficcional e histórico; c) estudos tradutórios de obras publicadas a partir do século XIX que tenham suas diegeses arquitetadas a partir da interseção entre os discursos histórico e ficcional; d) estudos e pesquisas que expandam as lacunas e silenciamentos sistematicamente perpetrados pelas historiografias literárias, valorizando produções de romance histórico não contemplados pelos cânones literários; e) estudos sobre produções de história e ficção voltados à literatura infantil e juvenil; f) estudos sobre produções de história e ficção que podem se inserir em produções lidas como dramas históricos; g) processos memorialísticos e de arquivamento em ficções que podem ser lidas como romances históricos; h) ficcionalizações e ressignificações de escritores e escritoras, discutindo o papel metaliterário para as produções de ficção histórica nas últimas décadas; i) interpretação e divulgação de autores contemporâneos que desenvolvam poéticas inseridas no contexto da ficção histórica: temas e metodologias de pesquisa comparatista; j) “Poética do 'descobrimento'” como fissura do campo de poder e (re)elaboração do passado histórico a partir da ficção; l) o papel do campo editorial e da crítica literária para a recepção de obras que tenham em sua gênese o desafio de ressignificar, via ficção, o passado histórico.
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